domingo, 3 de maio de 2009

E, finalmente,… o começo!

Tive uma cabeleireira que saltou de para-quedas pela primeira vez com 61 ou 62 anos. Na época, achei pra lá de radical, mas não deu pra conversarmos muito sobre o assunto: a maluca estava mais interessada em me convidar pra uma trilha nos Andes (queria fazer trekking na Trilha Inca pela segunda vez. Juro que é verdade!). Então, não tenho muita certeza, mas pra saltar (skydiving) deve ser assim: você procura uma escola, esclarece suas dúvidas, passa por algumas avaliações, paga os valores combinados, tem aulas teóricas e práticas e, finalmente, tcha-tchaaaam! Lá está você, voando pelos céus…! Issaaaaa!

Bem, acho que o friozão na barriga que antecedeu meu primeiro trabalho de desenvolvimento deve ser meio parecido com o skydiving. Depois de definir meu novo horário de trabalho e passar meses esperado ansiosamente o início de uma nova turma, numa noite de quarta-feira, lá estava eu, de roupinha branca nova em folha. Antes de sair de casa, já tinha feito minha firmeza para o Anjo da Guarda e tomado um banho com o trio alecrim-arruda-guiné.

Até aí, a única diferença em relação ao vôo foi a ausência de cobrança de pagamento; a aula teórica abordou alguns aspectos da doutrina umbandista, com ênfase para a prática da Casa. Estava muito tensa para sentir qualquer vibração mais sutil da Espiritualidade, e no meio da aula a única dúvida que tive foi: “meu Deus, quequeutôfazendoaqui, meu Deus, quequeutôfazendoaqui?”. Pensei que essa paúra era natural (imagina num curso de vôo livre) e tentei relaxar.

Bom, aí acabou-se a aula teórica. Nossos Pais e Mães, os médiuns da corrente, colaboradores, curimbas e nós, iniciandos, tinhamos que subir. “Como, subir? No avião, quer dizer, no abaçá? Assim? Já? Não dá pra tomar uma aguinha primeiro?”. Dava, mas não precisava. “Não dá pra assistir aqui mesmo, hoje, e subir na próxima?”. Talvez desse, mas não ia fazer diferença: um  dia, a gente precisa subir no avião, não foi pra isso que buscamos o curso, uai?

Subimos entoando o ponto de abertura do trabalho, que transcorreu de forma muito semelhante às giras de atendimento a que estava acostumada. Após a incorporação dos Guias pelos dirigentes e trabalhadores da Casa, fomos orientados a formar um semi-círculo. “E agora? e agora?”. Entendi que era nosso momento de “dar passagem” às nossas entidades; pensei: “calma, você já tem recebido seus guias; relaxa, se concentra, ouve o ponto, sente a vibração, firma seus pensamentos, tudo vai dar certo…”. Mentalizei o caboclo que já havia recebido algumas vezes. Como sempre, foi tudo meio sutil – as imagens, as sensações, a subida. A mesma sensação de incerteza - “sou eu ou a entidade?”, a mesma dúvida na hora da subida - “é agora? acabou?” Sem saber direito o que fazer, fui retornando à formação original da corrente, e os trabalhos se encerraram como de costume. Nem cheguei a conversar com os guias da Casa: qual das minhas 4628 perguntas eu faria primeiro?

Voltei pra casa ainda sob a agradável vibração da minha entidade, mas muito perdida e confusa. Dormi meio chateada, apesar do acolhimento do pessoal aqui de casa; só melhorei de humor ao longo do dia seguinte.

Sim, a associação do desenvolvimento mediúnico com a preparação para vôo livre não é tão descabida – pelo menos pra mim. Em ambas as situações, a gente procura uma escola (e o meu coração mora nesta), em ambas passamos por avaliações (o scan de várias entidades foi espontâneo e unânime), em uma delas pagam-se os valores pertinentes (na outra não), em ambas nós recebemos aulas teóricas e passamos à prática. A partir desse ponto, creio que as semelhanças ainda possam continuar: a certeza de que tem muita pergunta sobrando, um leve e discreto pânico (e mãos suando, frio na barriga, boca seca, taquicardia, e coisinhas assim sutis, das quais a gente nem se envergonha, imagina…), um clímax rápido, um certo atordoamento quando tudo termina, a impressão de que a gente não captou a coisa direito… e – principamente - a vontade de fazer tudo de novo. Radicaaaal!!!!

Hoje, penso que eu não sabia, mesmo, é dizer do que exatamente eu estava precisando. Creio que poderia, perfeitamente, ter pedido toda a ajuda que quisesse, a qualquer momento e a qualquer pessoa. A sensação de holding familiar que temos lá é muito bacana, fortalece o grupo e  dá sentido ao esforço de cada um; o resultado só pode ser algo tão encantador quanto este outro trabalho em equipe:

Em tempo: como na primeira foto, a gente salta, sim, com um instrutor, tanto no skydiving quanto no desenvolvimento mediúnico e, nesse último, com o privilégio de termos mais de um deles por salto: nós é que podemos não vê-los ou senti-los tão bem no começo, mas sua presença e condução são indispensáveis para todo o processo (e pra sempre): salvem nossos Guias e Anjos da Guarda!

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera

Assisti a esse filme coreano duas vezes… na verdade, em ambas as ocasiões perdi o começo… rsrs. Foi na TV por assinatura, mas já encomendei o DVD. Apesar desta ótima sinopse num site especializado, posso adiantar que o filme se passa em um pequeno monastério flutuante sobre um lago, onde vivem um velho monge e seu jovem aprendiz. Enquanto o menino cresce, explora os arredores e deixa-se levar por seus impulsos. 

Porém, o mestre sempre está pronto para ensinar suas lições, e mostra para o garoto que as consequências de pequenos atos podem durar a vida toda. Cada estação do ano mencionada no título representa um lindo paralelo em relação ao desenvolvimento espiritual e emocional do jovem monge. Se a primavera caracteriza esse registro de infância, o verão apresenta a explosão da vitalidade e a descoberta da paixão. O outono nos mostra os frutos (nem sempre doces) dessa mesma paixão, e o inverno trata da vida após a colheita. Mas, como diria José de Alencar, “tudo passa sobre a terra”, e chega uma nova primavera para fechar o filme e renovar o ciclo da vida. É uma obra repleta de metáforas, belíssima, e que nos traz o conceito budista da “roda da vida”, a sucessão de experiências pelas quais precisamos passar, na existência terrena, para nossa ascensão espiritual.

O que esse filme tem a ver com meu desenvolvimento mediúnico?

Bem, já mencionei a incompatibilidade entre meus horários de trabalho e o horário dos trabalhos de desenvolvimento. Nunca pensei em desistir: apenas tentava resolver a questão profissional.

Enquanto isso, os meses se foram. Hoje, olho para trás e me pego recordando como foi essa passagem de tempo. A Casa nas noites de calor, as chuvas, os temporais… o vento frio das noites de inverno (e como o aconchego do abaçá parece diminuir o frio…). Frequentadores que começaram a aparecer, outros que sumiram, outros que levaram seus filhos pra batizar. As datas festivas. O recesso de fim de ano. O sistema de som que pifou. É mais ou menos como as sensações que experimentamos a cada vez que voltamos à casa da nossa família, depois que crescemos e ganhamos o mundão, um misto de carinho e nostalgia.

Em paralelo, também penso em como eu tenho me transformado. Como tenho me sentido feliz e em paz, um pouco (pouquinho) menos rabugenta, um pouquinho (pouquíssimo) mais paciente. Penso em como um dia, depois de uma faringite, resolvi ficar sem fumar enquanto pudesse aguentar, e isso já dura sete meses; também penso que, nesse mesmo dia, achei que era melhor deixar de comer carne. Na verdade, não resolvi nem achei coisa nenhuma: da forma como a coisa foi abrupta e definitiva (um dia, ainda conto minhas aventuras no mundo vegetariano e não-fumante), acho mesmo é que a Espiritualidade apertou algum botão, e entrei no modo “carne-off”, “cigarro-off”.

Não, não tô virando santa, não. Muito pelo contrário: sempre peço, em oração, pra resmungar menos, pra criar vergonha e cuidar melhor da saúde, pra me descabelar menos no trânsito, pra dar um jeito nesse orgulho pavoroso… O que quero dizer é que, mesmo com esses cacarecos, estou lutando pra melhorar, pra incomodar menos, pra pesar menos na contabilidade terrestre. Acho que, nesse processo, ter encontrado a Umbanda é um diferencial indiscutível, então é muito natural a sensação de “fim de semana na casa dos pais” a cada gira.

Tudo tem seu tempo certo; esperar pela oportunidade de iniciar meu desenvolvimento me trouxe a chance de estudar, de amadurecer… e também de me afeiçoar à Casa com um amor que só a casa da gente desperta.

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

A (longa) espera até o desenvolvimento

Após o primeiro contato com meu preto-velho, os meses foram passando. O processo de desenvolvimento me havia sido franqueado, mas o dia da semana das sessões era incompatível com meu trabalho. Era difícil lidar com a grande vontade de estar no grupo e não poder… enquanto isso, comecei a ler. Vasculhei a internet atrás de material, mas sentia que o conhecimento teórico que adquiria não me bastava. Queria saber mais, aprender mais… e vivenciar mais, também.

Durante as giras de atendimento, algumas entidades começaram a permitir que eu “desse passagem”. Fechava os olhos, me concentrava…  - “concentrava em quê, Estela?”. Bem, eu tentava (ainda tento) perceber a imagem da entidade que se aproxima. O tronco começa a balançar para frente e para trás e, de repente, apenas “sinto” que devo me mover de determinadas formas, ou vejo a entidade fazê-lo. Já havia recebido instruções a respeito: “se a sua entidade indicar algo para você fazer, faça”. Os movimentos seguem até determindo ponto, depois não “percebo” mais nada e acabo abrindo os olhos. A sensação que fica geralmente é muito boa – mas dá sempre aquela impressão de querer mais. Não perco o controle sobre meus próprios movimentos; tudo é muuuito sutil e intuitivo. Bastaria querer, e sei que poderia voltar ao meu estado normal. Percebo que a alteração da consciência é qualitativa (o foco se estreita, os detalhes se desvanecem um pouco); do ponto de vista quantitativo, a consciência permanece dentro da normalidade: não me sinto sonolenta, nem torporosa, nem nada do tipo.  

Quando se fala a respeito de mediunidade, um dos enfoques mais frequentes diz respeito justamente ao do grau de participação do médium na qualidade da manifestação; muitas pessoas dizem que médiuns iniciantes costumam almejar um grau de inconsciência cada vez maior, seja para bucar legitimidade para o que está ocorrendo com eles, seja para vivenciar um contato mais intenso com a entidade espiritual que se apresenta. Ler sobre isso me ajudou entender melhor essa questão; não fico perseguindo um grau maior de inconsciência, mas tento relaxar (desafio e tanto, pra mim) e oferecer a menor resistência possível.

Mas, e agora? Vivenciar a incorporação das entidades espirituais em algumas giras de atendimento? E só? E tudo aquilo que eu quero saber? Perguntar pra quem? Acho que gira de atendimento não foi feita pra gente se “pendurar” nas entidades, e que a Espiritualidade deve saber o que precisamos – melhor até do que nós mesmos, já que estão a serviço de nosso Pai Maior. Para desenvolver faculdades mediúnicas, acho que a instância adequada é insubstituível; as inúmeras advertências para não oferecermos “passividade” fora do ambiente protegido é mais que uma prova disso. Não é por acaso que já fui orientada a me “controlar” mesmo que estivesse sentada na assistência; acabei entendendo o significado da frase: “não se concentre!”.

Então, a única alternativa que encontrei foi me preparar, dentro das condições possíveis – e com isso exercitar a fé e a paciência…

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O Preto Velho – primeiro contato

 Já estava feliz e animada desde a primeira manifestação mediúnica ocorrida recentemente, quando fui a uma gira de pretos-velhos. Fui atendida pelo mesmo médium daquela ocasião; após breve contato, pediu que o cambono colocasse outro banquinho ao lado do seu: “filha senta aqui, e fica pensando no pretinho velho”.  Enquanto me acomodava, ele chamou para o atendimento a pessoa da família que me acompanhava.

“Então, vamos pensar no pretinho velho, né? Mas… como é que se faz isso? e agora?” Ouvindo os pontos cantados, os atabaques, os meus próprios pensamentos, comecei a ver, na noite dos meus olhos fechados, a figura de um preto velho, com barba e cabelos brancos. “Uai, será que eu tô imaginando? será que isso é somente o que eu quero ver?” De repente, minha cabeça começou a se mover. Lentamente, para os lados, para cima, oscilando em volteios suaves. Estava meio excitada com aquilo, um tanto assustada, e queria saber o que mais iria acontecer. Minha respiração ficou irregular, e à vezes o ar me faltava. Sabia que poderia me opor aos movimentos assim que quisesse, mas não me opus àquele impulso suave e delicado que conduzia minha cabeça. Fixava minha atenção naquela figura, tentando buscar seus detalhes – e como às vezes ficava tudo tão nítido!

Finalmente, abri os olhos, e o médium me chamou. Disse que a entidade esteve “conversando” comigo, e que o início era assim mesmo. Recomendou que eu lesse, estudasse, mesmo que fosse em casa. Disse que o aprendizado na Casa não era muito diferente do que eu encontraria lendo (pelo menos os fundamentos teóricos, esclareceu, com sua linguagem), e que ganhar tempo era muito importante.

O misto de entusiasmo e alegria que eu senti é difícil descrever. Parecia ter ganho um presente – mas não um brinquedo, um doce, um carro, um abraço de alguém querido - era um presente sem forma nem tamanho definido, algo como passar no vestibular ou uma formatura: era uma chave, um ponto de partida para um mundo novo. Ah, que presente… e que responsabilidade!

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Origens da Umbanda – parte 2

Agora, retomando a questão “hora certa, lugar certo”, precisamos considerar o fator tempo: é hora de me preparar para a provável chuva de pedras e declarar que defendo a seguinte idéia: a Umbanda é uma religião brasileira.

Quanto a tratar-se de uma religião (e não uma seita ou crença, como querem alguns), segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda, religião “é um sistema de crenças e práticas relativas a coisas sagradas que unem em uma mesma comunidade (…) todos os que a ela aderem”. A partir dessa definição, pode-se afirmar que a Umbanda é uma religião.

Quanto a ser brasileira... sim, eu sei: sei que muitos discordam, que muitos afirmam que ela veio da África, que o fenômeno do sincretismo religioso foi fundamental em suas origens, que o culto aos elementos da natureza teve grande importância na estruturação da Umbanda, além de muitos outros argumentos que não ouso contestar. Entretanto, foi somente no Brasil que ocorreu o surpreendente amálgama de paradigmas e crenças que lhe deram origem – sem esquecer que, contribuindo para o surgimento de um sistema de fundamentos e práticas com características próprias, houve não apenas o enlace de elementos (devocionais, conceituais, litúrgicos...) cedidos pelo Catolicismo e pelas religiões africanas, mas também a participação de influências do Espiritismo (intercâmbio com entidades desencarnadas dentro da prática da caridade), de religiões orientais espiritualistas (conceitos de karma, reencarnação, evolução moral do espírito) e das práticas religiosas indígenas (as pajelanças, por exemplo, unindo o exercício do sacerdócio e a cura das enfermidades).

Assim, no meu modesto entendimento, a Umbanda – assim, com essa cara, essa identidade particular – surgiu foi aqui, num dos únicos lugares do mundo (senão o único), em que poderiam se somar tantas contribuições, tão ricas e distintas, trazidas pelos diferentes elementos constituintes do povo brasileiro e suas heranças. A julgar por esse prisma, não deixa de ser uma bela imagem para pensarmos em Universalismo, não é verdade?

Oportunamente, a parte 3 deste post fará algumas (humildes) considerações sobre a tese que afirma que o surgimento da Umbanda foi ainda mais antigo… muito mais antigo…

Saudações a todos!

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sábado, 28 de março de 2009

Origens da Umbanda - parte 1

A frase: “nada acontece por acaso” é muito utilizada por espiritualistas em geral – e por espíritas em particular. Acredito que possa ser muito bem complementada por esta outra: “as coisas só acontecem quando realmente devem acontecer”. Parece redundante, mas é uma frase reforçadora da idéia de que há uma organização do fatos, na linha do tempo, a demonstrar claramente a infinita sabedoria do nosso Criador. “Tudo tem sua hora e lugar” também é um princípio importante.

A primeira parte deste post fará considerações sobre “tempo”: assim, o surgimento do Espiritismo, no século XIX, deu-se num contexto de grandes modificações. A Revolução Industrial, o Positivismo de Comte, as influências do Iluminismo, a teoria da hereditariedade de Mendel, a Teoria da Evolução das Espécies de Charles Darwin e a possibilidade de investigação de fenômenos através de metodologia científica somam-se a tantas outras transformações do panorama social, econômico e cultural da Europa que criaram um cenário favorável à codificação do Espiritismo por Allan Kardec. Particularmente, acredito que seria impossível a estruturação da doutrina espírita sem que houvesse essa conjunção providencial de tantos fatores.

No Brasil, também no século XIX, a Umbanda encontrou solo previamente preparado para seu advento. A Proclamação da República (vejam só: a antiga Constituição do Império, de 1824, consignava o Catolicismo como “Religião do Império”), a Abolição da escravatura, a popularidade da doutrina e da prática do Espiritismo foram eventos próximos no tempo e em alguns de seus desdobramentos.

Após a promulgação da Lei Áurea, centenas de escravos se viram ainda mais desvalidos; expulsos das fazendas, ocuparam desordenadamente os sítios urbanos sem nenhuma política de inserção social – sem ter onde trabalhar, onde morar, como subsistir. Um enorme contingente humano, marginalizado, aglomerou-se nos subúrbios, nos embriões das favelas, nas sombras hostis dos cortiços e becos das cidades, juntamente com mestiços e brancos de condição desfavorecida. Nessas comunidades, a miséria moral instalou-se ao lado da miséria material: estava formado o ambiente propício para a disseminação de charlatanismos, feitiçarias, superstições e toda sorte de rituais distorcidos e dirigidos para trabalhos do mal, de prejuízo aos desafetos ou obtenção de bens materiais. Segundo Matta e Silva, “toda essa complexa mistura, que o leigo chama de macumba, baixo espiritismo, magia negra, envolvendo práticas fetichistas e barulhentas ... era a situação existente, quando surgiu um vigoroso movimento de luz, ordenado pelo Astral Superior, feito pelos espíritos que se apresentaram como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças”.

No Plano Astral, ou na Espiritualidade, como queiram, inúmeros espíritos que foram - em vida terrena - escravos, índios e mestiços almejavam manter intercâmbio com seus irmãos encarnados; a prática do bem, o tratamento dos enfermos, a transformação de sentimentos e pensamentos (aliviar os carentes, encorajar os excluídos, abrandar os endurecidos) eram aspirações que os impeliam ao serviço de caridade. Entretanto, essas entidades não encontravam acolhida ao desenvolvimento de seu trabalho: ou se deparavam com casas voltadas a práticas pouco recomendáveis, ou recebiam o estigma de “manifestações demoníacas” pelos irmãos católicos, ou então eram “convidadas” a se retirarem de centros espíritas: antigos escravagistas e seus descendentes se viam em situação desconfortável perante espíritos de negros e índios que foram por eles aprisionados, torturados (e até mortos) manifestando-se durante os trabalhos espirituais da religião codificada na França e trazida ao Brasil pelo segmento da sociedade brasileira que enriqueceu – direta ou indiretamente - às custas da exploração do trabalho desses irmãos. Orgulho, vaidade e remorso “torciam os bigodes” da nata da sociedade que compunha grande parte das mesas espíritas.

Foi nesse contexto que, em atividades mediúnicas sediadas em diversas localidades brasileiras, ocorreram várias manifestações de entidades espirituais anunciando a chegada de um movimento religioso renovador, trazendo um sopro de esperança, amor e fé. A entidade conhecida como Caboclo Curuguçu (ou Curugussu), da linha de Ogum, apresentou-se durante alguns anos, coordenando o trabalho de vários outros colaboradores espirituais que traziam a mesma mensagem. Alguns autores afirmam que o termo “Umbanda” já era citado em algumas dessas comunicações; outros, por sua vez, declaram que, além de anunciar a chegada da Umbanda, o Caboclo Curuguçu dizia ser emissário da raça vermelha “pura”, ou seja, que os caboclos que coordenam o movimento umbandista atual, na Espiritualidade, não são os indígenas da época da colonização ou seus remanescentes, mas espíritos muito evoluídos da antiga raça vermelha, que viveu nesta terra há milênios. Polêmicas à parte, o que provavelmente a Espiritualidade pretendia era preparar corações e mentes para o advento de uma nova forma de expressão da devoção e da fé.

Em 15 de novembro de 1908, um jovem chamado Zélio Fernandino de Moraes foi levado à Federação Espírita de Niterói; apresentando estranha enfermidade, que não cedera nem com cuidados médicos nem com exorcismos de sacerdotes católicos, achou-se finalmente conduzido àquele local. De repente, passou a comunicar-se verbalmente com os presentes, sem controle voluntário: estava sendo influenciado mediunicamente pela entidade que acabou por se denominar Caboclo das Sete Encruzilhadas. Questionando os participantes sobre por que motivo discriminavam espíritos de negros, índios e pobres que desejavam se manifestar, o Caboclo foi tratado com reservas e desconfiança; anunciou, então, que na noite seguinte seu “aparelho”, Zélio, iniciaria na própria residência o culto que acolheria qualquer entidade que quisesse “trabalhar”, sem restrições.

Eis que numerosos espíritos, trabalhadores pela caridade, finalmente encontravam condições de se manifestar e prestar atendimento a uma multidão de necessitados – enfermos, carentes, desesperados, pobres na matéria ou no espírito. Com o tempo, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou a estabelecer orientações e diretrizes gerais para a organização do culto – fundamentação na prática da caridade, sem sacrifício de animais, sem nenhum tipo de remuneração. Entre outros preceitos, esses eram indispensáveis para distinguir a prática da Umbanda de ritos diversos, disseminados nos grandes centros, voltados à cobrança por “trabalhos” direcionados para interesses escusos, com matança de vários tipos de animais, com exercício tirânico dos “poderes” de supostos sacerdotes aliciadores de espíritos oriundos do Baixo Astral.

À “Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade” (assim denominada pelo Caboclo porque, em suas palavras, assim como Maria acolheu em seus braços o Filho, assim a Tenda acolheria os que nas horas de aflição, a ela recorressem), seguiu-se a fundação, também determinada por orientação do Caboclo, de outras sete tendas: Tenda Nossa Senhora da Conceição, Tenda Nossa Senhora da Guia, Tenda Santa Bárbara, Tenda São Pedro, Tenda Oxalá, Tenda São Jorge e Tenda São Jerônimo, esta última em 1935.

A história de Zélio de Moraes é capítulo indispensável na história da Umbanda: merece ser contada à parte, o que será feito oportunamente.

Nas primeiras décadas do século XX, o país passou por transformações políticas e sociais que permearam a evolução da Umbanda, no início do seu processo de estruturação e reconhecimento como religião. O Tenentismo, a marcha da Coluna Prestes pelo Brasil, a Revolução de 1930, entre outros fatos, precederam a ascensão ao poder de Getúlio Vargas; seu modelo de governo propagou a idéia do nacionalismo e da integração nacional, do brasileiro como um povo forte e patriota como bandeiras para fortalecer o Estado. Muitos autores acreditam que a fundação da Federação Espírita de Umbanda, em 1939, e a realização do I Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, em 1941, foram movimentos coerentes com a intenção de dirigentes umbandistas de propagar a umbanda como religião brasileira, a integrar elementos das diferentes raças e culturas componentes do nosso povo. Alguns chegam a afirmar que a adoção de um caráter mais… “institucional” facilitaria a legitimação da Umbanda pelo poder público e acabaria com a repressão policial (que se estendia às práticas de Umbanda, Candomblé e a tudo o mais que não formasse a trinca Catolicismo, Protestantismo, Espiritismo - esses últimos vistos pela Igreja Católica com um olhar meio atravessado).

Com a intenção de dissociar ainda mais a Umbanda das práticas de feitiçaria, baixo espiritismo, magia negra etc, autoridades umbandistas tentaram se apropriar de um discurso mais enriquecido por contribuições filosóficas, científicas e identificadas com as doutrinas católica e espírita, destinando um segundo plano à natureza magística e à herança negra e indígena. Esse é o olhar de vários estudiosos que enxergam, nesse processo, uma espécie de “embranquecimento” da Umbanda para que pudesse sobreviver, poupar-se de discriminação e se disseminar como religião reconhecida, em detrimento da participação dos mais diversos elementos trazidos por outras raças.

Em 1947, surgiu o JORNAL DE UMBANDA que, durante mais de vinte anos, foi um órgão de divulgação doutrinária de grande valor. Zélio de Moraes ajudou a instalar federações umbandistas em São Paulo e Minas Gerais. Em 1944, vários umbandistas ilustres, incluindo vários militares, políticos, intelectuais e jornalistas, apresentaram ao então Presidente Getúlio Vargas um documento intitulado "O Culto da Umbanda em Face da Lei" e consegue daquela autoridade a descriminalização da Umbanda.

Atualmente, contamos com grande número de órgãos representativos da Umbanda no Brasil (e vários no exteror); alguns agregam casas de Candomblé e outros cultos de raiz africanista. Como exemplos, podemos citar:

  • INTECAB - Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira
  • CONUB - Conselho Nacional da Umbanda do Brasil
  • SOUESP - Superior Orgão de Umbanda do Estado de São Paulo
  • FUCESP - Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo
  • FBU - Federação Brasileira de Umbanda
  • UTUCB - União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil
  • PRIMADO DO BRASIL - Organização Federativa de Umbanda e Candomblé
  • FUB - Federação de Umbanda do Brasil
  • SOI - Superior Orgão Internacional de Umbanda e dos Cultos Afro.
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    sábado, 7 de março de 2009

    Médium, eeeeeeeeeu?

    Foi numa gira de atendimento; lá estava eu, diante da entidade, recebendo meu passe, olhos fechados - pra me concentrar na importância do momento, né!? Ah, mal sabia eu como esse negócio de "concentração" é delicado...
    De repente, meu corpo começou a balançar de leve, pra frente e pra trás. Pensei que fosse o ritmo dos atabaques, que fosse minha pulsação cardíaca... que nada! Quando me dei conta de que estava recebendo a influência de uma entidade espiritual em meu corpo, pensei: xi!

    Médium, eeeeeeeu???

    Gente, nunca havia pensado nessa possibilidade, antes. Sou de família católica, frequentei uma denominação protestante na adolescência e estava toda satisfeita em ter me tornado espírita (mais ou menos) praticante - rsrs. Nunca havia pensado em exercer mediunidade, nem em tudo o mais que isso implica.

    Durante aqueles momentos, só me perguntava: "e agora, quequeu faço?". Em algumas frações de segundo, a sensação de perda de controle (do corpo, da consciência, não sei) aumentava: dava medo, e eu me retraía um pouco. Em outros, eu tentava perseguir ainda mais aquela sensação, soltava os braços, a cabeça, mas não acontecia nada diferente. Era bom, era angustiante, era intenso... era confuso. A respiração ficou irregular, eu me sentia aflita e queria que aquilo "virasse algo".

    O diagnóstico da entidade que me atendia foi: "a conexão aconteceu, mas você não permitiu a manifestação porque bloqueou". Aconselhou-me a ler sobre o assunto e a "deixar acontecer" (palavras minhas).

    Saí do abaçá meio passada, meio leve, meio eufórica, meio surpresa... e agora? Mal tinha começado a frequentar o Centro. Ser médium não me parecia uma realidade tão assustadora, mas era algo tão novo e inusitado que precisava assimilar melhor. Ainda estou assimilando...
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